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Toda ciência, da qual a lingüística é aqui apenas uma espécie, é construção de uma escrita e define-se como ciência por só admitir escrita do que se repete. O que implica que ela descarta tanto o que da realidade não é necessário à repetição em seu objeto, quanto aquilo que, por si mesmo, não é repetível – digamos o acidental –, e enfim aquilo que poderia, naquilo que se repete, mascarar o que aí se repete, ou seja, as variações individuais. (MILNER, J. C. O amor da língua. São Paulo: Artes Médicas, 1987).

O portal letras.etc.br tem por objetivo geral o mapeamento da área de Letras, aqui entendida como um território sociodiscursivo colonizado por mais de um milhão de profissionais ou quase-profissionais brasileiros. Nossos objetivos específicos estão relacionados à reconstituição das condições sócio-históricas de produção de Letras como área do conhecimento, como curso de nível superior e como campo de atuação profissional. Partimos do pressuposto de que a área de Letras, como lugar de produção, de circulação e de aplicação do conhecimento sobre a língua e a literatura, é produto sócio-histórico de uma formação ideológica específica, que forja uma identidade técnico-científica que não apenas "profissionaliza" os profissionais da área e impõe-lhes a delimitação de seus objetos, de seus objetivos, de seus métodos e de suas demais práticas - que instala, pois, o "repetível" de Letras -, mas que faz com que se reconheçam como tal, ou seja, como "profissionais" e como "de Letras", em oposição a outras possíveis categorizações e filiações.

Esta nossa profissiografia se revela tanto mais urgente quanto percebemos que Letras é, sobretudo, uma área em crise. Crise que principia nos próprios programas de formação em Letras; crise que se evidencia no fracasso social da Linguística; crise que prolonga e agrava uma já pentacentenária crise nacional da leitura. Nenhuma delas é nova; todas são de Letras.

Segundo o Ministério da Educação, existem 1.319 habilitações em Letras no Brasil, que somavam, em 2008, mais de 200.000 matrículas. Trata-se do quinto curso com maior número de estudantes no País, logo após Administração, Direito, Pedagogia e Engenharia. Apenas em 2008, mais de 35.000 novos profissionais formaram-se em Letras, que foi também o quarto curso com maior número de inscritos para o vestibular da FUVEST de 2009. Temos ainda a maior rede de pós-graduação stricto sensu do País: são 173 programas de mestrado ou doutorado recomendados pela CAPES (embora apenas quatro tenham alcançado nota máxima na última avaliação). Os números, no entanto, são enganosos; e o prognóstico não é exatamente positivo. Letras vive também a crise das licenciaturas. Por toda parte, várias das habilitações em Letras vêm sendo fechadas. Apenas na cidade de São Paulo, 5 habilitações em Letras já não foram oferecidas nos processos seletivos do fim do ano passado. Na própria FUVEST, o número de inscritos ao curso de Letras em 2009 foi 43,3% (3.393 candidatos!) inferior ao observado em 2006. E a queda na procura não significa maior seletividade. As notas médias dos formandos em Letras nos exames promovidos pelo INEP (ENC, ENADE) são as segundas mais baixas observadas entre todos os cursos de graduação do Brasil (perdemos apenas para Matemática).

Some-se, à crise da formação, o fracasso social da Linguística, que não vem conseguindo transpor os muros da Academia. A perseverança do ensino da Nomenclatura Gramatical Brasileira na educação básica, contra todas as indicações em contrário dos parâmetros e das orientações curriculares nacionais; o sucesso daquilo que Marcos Bagno já chamou de "quinquilharias multimidiáticas", como as colunas semanais de dicas e pegadinhas gramaticais nos principais jornais do País; o próprio relevo de gramáticos e pseudogramáticos nos meios de comunicação de massa e sua concepção eugênica de língua; enfim, o preconceito e a discriminação linguísticos, praticados sem constrangimento nas principais revistas semanais do País, em programas semanais de televisão em horário nobre, nas dezenas, se não centenas, de comunidades do Orkut que pregam, abertamente, o higienismo linguístico, são todos testemunhas do quanto os linguistas estamos pregando no deserto. Os próprios alunos dos cursos de graduação em Letras vêm reivindicando, de forma cada vez mais contundente, um revisionismo curricular que restaure a precedência da Gramática Tradicional, de cunho normativista e excludente, sobre a Linguística, que seria a ciência da linguagem.

E a Literatura não vai muito além. Não é de hoje que se denuncia que a Literatura está reduzida à história e à periodização literária; que é monopolizada por autores e obras muito distantes no tempo; e que a crítica literária universitária faz que o modelo de leitura imponha-se ao texto, enquadrando-o e empobrecendo-o. Na educação básica, a leitura dos textos tem sido substituída pela leitura de comentários, de adaptações e de resumos, e vem sendo marcada por flagrante fracasso na formação de leitores autônomos, capazes de ler com seus próprios olhos, e de formar e problematizar seus próprios juízos estéticos a respeito das obras literárias.

O quadro é tanto mais grave quanto se percebe que, para expressivo contingente de brasileiros, a escola é a única oportunidade de contato com a leitura. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2005, promovida pelo Instuto Pró-Livro, o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano, dos quais 3,4 são indicados pela escola. O retrato confirma os dados da Câmara Brasileira do Livro, segundo a qual foram vendidos 329 milhões de livros no Brasil em 2007, dos quais mais de 50% constituíam livros didáticos e mais de 24% haviam sido adquiridos pelo próprio Governo.

Se é verdade que nunca se leu muito neste País, também é verdade que se lê muito menos aqui do que em outras partes do mundo. Na última edição do PISA (2006), programa de avaliação das habilidades básicas em adolescentes de 15 anos promovido pela OCDE em 57 países desenvolvidos e em desenvolvimento, o Brasil ocupou a 49a posição na prova de leitura, com média de 393 pontos, ou nível 1 de aprendizagem (o mais baixo). Embora possamos discordar da metodologia da avaliação, parece evidente que estamos fazendo algo de errado em sala de aula.

Enfim, as muitas contradições internas da área de Letras parecem indicar a urgência de uma cartografia da área que nos ajude, se não a responder às várias questões, pelo menos a formulá-las de forma mais sistemática, a recuperar suas origens históricas e, quem sabe, a encontrar eventuais roteiros de saída deste nosso claustrofóbico labirinto. Sabemos que o mapa desta nossa província não coincidirá ponto por ponto com a própria província, sob o risco de, qual no miniconto de Jorge Luís Borges, também vir a ser abandonado às Inclemências do Sol e dos Invernos, e de vir a ser habitado por Animais e Mendigos; mas guardamos a esperança de que, feitas as contas, teremos ao fim pelo menos um repositório dinâmico e multitudinário de representações sobre a língua e a literatura que, em última análise, poderá servir de base a quem possuir maior engenho e arte.