ENELIN2009

III Encontro de Estudos da Linguagem

II Encontro Internacional de Estudos da Linguagem

14 e 15 de agosto de 2009

Pouso Alegre - MG

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Língua como lugar de dissenso: a política de um nome

Rejane Maria Arce Vargas (UFSM)

 

A contemporaneidade vem sendo marcada pelo discurso da mundialização, este que produz entre outras coisas um imaginário consensual sobre língua nacional, sobre sujeitos. Presentificado fortemente nesse discurso, o nome ‘comunidade’ é um dos elementos para se pensar o funcionamento da língua na sociedade do tempo presente. O modo como a palavra vem sendo discursivizada repousa em uma visão consensual de mundo, apagando sujeitos, sentidos e filiações, sobrepujando a diferença constitutiva do real. O lugar dessa diferença é o discurso, uma vez que o confronto do simbólico com o político tem um objeto próprio que é o discurso (Orlandi, 1998). Dessa forma, nossa proposta é desencadear uma reflexão em torno do nome comunidade em seus limites, em seus confrontos, como lugar de dissenso, sobretudo considerando o político em funcionamento nas discursividades, na esteira da compreensão de que a palavra estabelece lugares simbólicos (Scherer, 2009), (re)parte o real, o que se processa irremediavelmente via linguagem. Objetivamos problematizar o nome comunidade sob o viés do político em três horizontes: o da direção, divisão de sentidos (Orlandi, 2004, 2005), o do dissenso/desentendimento que põe em xeque o suposto consenso sobre as relações de partilha na sociedade (Rancière, 1996, 1998) e este como algo que é próprio da divisão que afeta materialmente a linguagem (Guimarães, 2005), levando em conta que um discurso recobre uma concepção de língua. Nosso interesse de pesquisa e de tese aponta para um funcionamento do nome caracterizado por um certo imaginário que vem sobredeterminando a noção ‘comunidade’ que, ampla e controversamente, tem se prestado para designar toda e qualquer coisa de caráter minimamente gregário. Essa configuração põe em movimento, especialmente, o par inclusão/exclusão social, o qual também encontra a saturação de sentidos, ao passo que a exclusão se dissolveria via inclusão normativa. Em face dessa conjuntura, nosso trabalho alicerça-se, basicamente, no enunciado: agora a moda não é mais favela... é comunidade, a ser considerado em relação à reflexão de Peter Pál Pelbart (2003, p. 31) a qual aponta que “quem diz sociedade já diz perda ou degradação de uma intimidade comunitária, de tal maneira que a comunidade é aquilo que a sociedade destruiu”. O corpus do trabalho será constituído de “flagrantes” (Orlandi, 2001), lembretes, partes, pedaços, fragmentos da narratividade urbana constituída dessa dispersão nos dias de hoje. Assim, analisamos o enunciado supracitado, motriz de nosso trabalho, recortado de um comentário veiculado na mídia radiofônica acerca da nova política habitacional implementada no País, além de outros ‘flagrantes’ cotidianos, essencialmente coletados do discurso em circulação na internet. A pergunta a qual submeteremos os recortes será a seguinte: o que comunidade está designando e/ou o que está apagando? Esse questionamento visa a nos dar elementos para complexificarmos a discursivização da palavra na contemporaneidade, na medida em que “a designação é o modo pelo qual o real é significado na linguagem” (Guimarães, 2007, p. 82). Tal processo, entretecido na base linguística, é compreendido como uma possibilidade de se refletir sobre memória da língua e língua da memória (Scherer, 2003) em que o nome se apresenta como forma de dirimir conflitos, calcado em um imaginário ao qual subjaz um sujeito despolitizado, uma política imaginária da identidade e da linguagem (Scherer et al., 2003), que ora encontra novas materialidades de circulação em larga escala as quais contribuem para uma pasteurização da diferença, via produção consensual de lugares simbólicos de segregação destinados às comunidades, aos pobres, ou mesmo aos ‘sem-lugar’, ‘sem-nome’, porque eles todos poderiam então ser ‘identificados’ como pertencentes a uma certa ‘comunidade’. Assim, o exame do caráter fundamental do político da/na língua nos permite antever que ‘comunidade’ apresenta-se como a panaceia para as moléstias sociais, e tem servido antes para corporificar perversamente preconceitos, dimensão esta que visamos a tratar em seus limites, pensando sobre a política do nome mediante novas discursividades.