ENELIN2009

III Encontro de Estudos da Linguagem

II Encontro Internacional de Estudos da Linguagem

14 e 15 de agosto de 2009

Pouso Alegre - MG

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O discurso metafórico do grafite atravessado pela ideologia escolar

Denise Aprecida Gomes dos Santos (Univás)
 

Este trabalho pertence à área de pesquisa Língua e Ensino do Mestrado Ciências da Linguagem da Universidade do Vale do Sapucaí. Tem como proposta responder como se articula a relação entre os sujeitos envolvidos no processo – aluno x professor/ escola e compreender que sentidos permeiam o uso do grafite em sala de aula. Para isso, apresenta como corpus questionários e textos produzidos pelos alunos do 1º Ano do Ensino Médio da Escola Estadual Presidente Bernardes, em Pouso Alegre, MG. Os textos foram analisados pela perspectiva da Análise de Discurso da linha francesa que permitiu focalizar, no discurso materializado através do grafite, as marcas produzidas por esse sujeito ao ser interpelado pela história, língua ideologia dentro do ambiente escolar. Por ter a sociedade cristalizado a ideologia de que a urbanidade de uma língua se dá pela escrita, que por sua vez tem seu lugar de aquisição remetido ao espaço escolar; sede da reprodução cultural, a escola, por ser um aparelho ideológico do Estado, através da dissimulação, se estabelece e atribui um estatuto de necessidade, instituindo um saber legítimo, que valoriza somente o que deve ser dito e visto pelos protagonistas do processo ensino-aprendizagem. E, ao cumprir sua “missão” historicamente instituída, assujeita o aluno de acordo com a sua formação ideológica que a coloca com a responsabilidade de produzir consciência de língua e cidadania, como também, acaba produzindo um simulacro, pois o aluno não é autor, por não estar autorizado a dizer de acordo com a sua realidade e, se somente é autorizado a dizer de uma forma e não de outra(s), passa a se significar através do não-dito. Por outro lado, a escrita, manifestação eminentemente social, permite ao homem, ao se assujeitar à língua, se significar perante o seu meio através do uso de signos convencionados socialmente. Porém, a apropriação da linguagem, por ser um ato social, possui sentidos diferenciados por estar intrinsecamente relacionada a quem emite, como e para quem é emitida. Logo, por ser um produto de identificação e de reação recíproca não pode ser vista meramente como uma forma de o sujeito se comunicar; ele, através dela, também se identifica. Assim, o grafite, ao mesmo tempo em que permite ao sujeito manifestar sua identidade e significar-se, é um discurso, com materialidade própria que não reside no conteúdo ocultado, mas no próprio mecanismo de produção desse conteúdo. Tanto os de rua como os escolares, pela Análise de Discurso, são lidos como traçados que silenciam sentidos e denunciam outros que a sociedade não permite que sejam apontados; constituem-se como um gesto de rompimento por não corresponder ao padrão de escrita que a sociedade autoriza. No espaço escolar, ao estabelecer um confronto entre o discurso pedagógico autoritário e o sujeito-aluno, deixa marcas de resistência, através do silêncio constitutivo, oriundo do simulacro formal em que é assujeitado. Diante dessa constatação, urge o despertar da consciência do educador a fim de que possa alterar a prática atual do discurso pedagógico que manipula ao mesmo tempo em que anula o sujeito-aluno. Enquanto a escola continuar silenciando sentidos, exercendo o falso papel da inclusão por não permitir ao sujeito-aluno que se posicione como interlocutor para ser ouvinte do próprio texto, estará reproduzindo a massificação da consciência crítica. Somente através de um discurso pedagógico não autoritário, marcado pelo diálogo é que os protagonistas do processo ensino-aprendizagem poderão dominar o referente e serem parceiros do processo interlocutivo. Tanto o professor quanto o aluno passarão a desempenhar novos papéis dentro da escola e, consequentemente, o discurso metafórico do grafite produzido dentro da sala de aula deixará de ser marcado pelo gesto de resistência e os sentidos, obviamente, serão outros.